Textos

Sobre o meu percurso ou uma história de criança.

Como situar os que habitam ou cruzam fronteiras, refugiados de guerra, população de rua, trabalhadores migrantes e “nômades”? Como reterritorializar uma população em trânsito que perdeu suas amarras a lugares definidos? De que forma os sentidos espaciais se estabelecem, e quem tem o poder de tornar lugares os espaços?

Estas questões se evidenciam quando vivemos uma condição generalizada de “sem teto”, em um mundo sem fronteiras onde as identidades estão se tornando cada vez mais, senão totalmente desterritorializadas, ao menos territorializadas de forma diferente. Neste jogo, ficam borrados limites familiares entre o “aqui” e o “lá”, o centro e a periferia, a colônia e a metrópole.

Quando criança, a primeira coisa que procurava nos jornais e revistas que chegavam em casa era a seção de imóveis: Queria checar as plantas baixas dos apartamentos a venda nos anúncios de classificados. Com o jornal em mãos me apropriava dos desenhos de apartamentos impressos no pedaço de papel escolhido e como numa brincadeira recortava e colecionava aqueles territórios gráficos. Sentia-me atraído pelo desenho. Inquietava-me especialmente com a malha labiríntica que se formava com as portas e paredes a partir do projeto arquitetônico e me perdia inventando moradores e situações diversas pelos cômodos.

Havia já aquela altura certo interesse e curiosidade pelo espaço e seus desdobramentos levando em questão a condição humana. Qual o morador deste? Como seria a casa ideal daquele outro e assim por diante. Tinha a meu favor uma visão panorâmica. Como que num jogo de quebra - cabeças remontava, juntava e cortava tentando em outro tempo recriar outros espaços. Não raro perdia - me juntando numa só, 10, 15 plantas resultando em labirintos por onde meu olhar e minha imaginação derivava .

Mais tarde, já no curso de engenharia e trabalhando no ramo da construção civil como estagiário, novamente tomei contato com as plantas arquitetônicas mas, de forma diferente do tempo infantil, agora a minha relação com as figuras se dava de uma forma fria e seca, racionalizada ao extremo. Trabalhar no ramo da engenharia me fez vivenciar e participar de um processo de estriamento espacial, testemunhar e ajudar na construção e produção de um espaço calculado, dividido em compartimentos estáveis, preparados e aparelhados especialmente para uma determinada função: comer, dormir, tomar banho etc..

Depois de quatro anos abandonei a engenharia ingressando em seguida no curso de artes plásticas da Universidade Federal da Bahia. Naturalmente, ao longo do curso fui aos poucos retomando uma relação com a planta arquitetônica bem próxima à que eu tinha quando criança, um olhar agora menos funcional e mais lúdico e humanizado. Já como artista plástico, comecei a entender o espaço como um campo aberto de experiências sociais múltiplas, um espaço ocupado pela instabilidade de acontecimentos e ações temporárias e imprevisíveis em oposição a segurança e estabilidade do espaço do construído. Assim tomei consciência das diferenças entre o espaço estriado e construído e o espaço liso e aberto das ruas.

Isso nos faz pensar em um sentido de lugar progressista, não fechado e defensivo, mas voltado para fora e que combine com a recusa do produto e dos processos do “ficar parado”. Quero com isso, chamar à atenção para o solo comum e o território perdido, zonas simbólicas de contato, de instabilidade, que nascem, morrem e renascem todos os dias abrigando uma arquitetura invisível ou de passagem cotidianamente construída.

O resultado prático está na produção de trabalhos que usam um território instável e limítrofe entre a esfera pública e privada como matéria prima fecunda de acontecimentos que se revelam num ambiente espacial carregado de possibilidades. Uma arquitetura e um espaço flutuante e apto a mover-se como um vetor em qualquer direção deflagrado por intensidades que escapam ao nosso controle sempre indicando ou sugerindo uma realidade e um mundo mais amplo, complexo e desigual. Um espaço fora de controle e que contraria e ofusca um conceito espacial estável e historicista modelado e demarcado por geógrafos em torno de divisões políticas fixas como sendo o território institucionalizado de um poder hegemônico.

As obras ainda problematizam construção do espaço e seus desdobramentos, levando em questão as relações de intensidade entre o homem, a cidade contemporânea e o espaço público. Penso que os trabalhos aludem a este espaço movente e fora da lei territorial fixa que rege a arquitetura de projeto ao mesmo tempo em que por cadeia apontam de forma sutil para uma política habitacional desigual, deficitária e exclusória.

É desta perspectiva que se torna possível uma interpretação alternativa do lugar e da sua arquitetura; o que dá ao lugar sua especificidade é o fato de que ele se constrói a partir de uma constelação de relações sociais que se encontram e se entrelaçam em um ponto particular que novamente se abre. Assim, em vez de pensar em um lugar com fronteiras ao redor pode-se imagina-los como momentos arquitetônicos estruturados e articulados em redes de relações e entendimentos sociais. Isso, por sua vez, permite um conceito de lugar extrovertido e progressista que inclui a consciência de suas ligações com um mundo mais amplo. Em primeiro lugar, eles não são estáticos. Se os lugares podem ser conceituados em termos das interações sociais que agrupam, essas interações em si mesma não são inertes: elas são processos. Talvez se deva dizer também isso dos lugares, que eles também são processos. Em segundo lugar, um lugar não tem de ter fronteiras no sentido de divisões demarcatórias ou possuir uma arquitetura permanente e visível. É evidente que as fronteiras são necessárias para certos tipos de estudo mas não são necessárias para a conceitualização de um lugar em si. Finalmente os lugares não tem de ter "identidades" únicas ou singulares: eles estão carregados de conflitos. Sobre o que foi seu passado, como é o seu presente e o que poderá ser seu futuro.


Currículo

Gaio
Salvador da Bahia, Brasil,1971.
Mestre em  Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia.
 

Exposições individuais
2008 - 2102, Cité des Arts, Paris, França.
         - Espaçonaves: A cidade não mora mais aqui, Palácio Capanema, Rio de Janeiro, RJ
2007 - III Temporada de projetos CCSP, São Paulo, SP
         - Sítios, Gesto Coperativa Cultural, Porto, Portugal.
         - Fora de Lugar, Aliança Francesa, Salvador, Ba.
2006 - Desterro, Projeto trajetórias 2006, Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE
2005 - Arquitetura invisível, Paulo Darzé Galeria de Arte, BA, Brasil

Exposições coletivas (seleção)
2009  - Saccharum BA Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, BA
          - Cartas/trajetos, Centro Cultural Banco do Nordeste, João Pessoa, PR
          - OpenArt, Conjunto Cultural dos Correios, Salvador BA
          - Premiados Salão do MAM, Galeria Solar do Ferrão, Salvador, BA
2008  - Nova Arte Nova, Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, SP
          - Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, RJ
          - Harmony art show, Nehru Art Center, Mumbai, India
          - Retalhos postais, Museu Palácio da Galeria, Tavira, Portugal
          - Reação em cadeia, Centro Cultural São Paulo, São Paulo, SP
 2007  - 14º Salão da Bahia, Museu de arte Moderna da Bahia, Salvador, BA
          - 2nd Harmony Art Foundation Sculpture Show, Mombai, India
          - 58º Salão de Abril, Centro de Cultura Dragão do Mar, Fortaleza – CE 
          - Cidade Paralela, Galeria Solar do Ferrão, Salvador,BA
          - Ligações cruzadas, Centro de Cultura Dragão do Mar, Fortaleza – CE
          - Noticias do agora, Aliança Francesa da Bahia, Salvador, BA
2006  - Winter, Tint Art Gallery, Tessalonike, Grécia
          - Paradoxos, Projetos Rumos Itaú Cultural, Instituto Itaú Cultural São Paulo, SP
          - Paço das Artes, Rio de Janeiro - RJ, 
          - Entre o Público e o privado: Transições na arte Contemporânea,Centro de Cultura Dragão do Mar, Fortaleza – CE
          - Cidades: construção e Precariedade.Museu de arte Contemporânea de Goiás, Goiânia,GO
         - 5 de fora, Galeria PAA, Porto, PT
         - Galeria Solar do ferrão, Salvador, BA
2005  - XII Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, BA
          - Vista Aérea, Galeria Marta Traba, Memorial da América Latina, São Paulo, SP, 
          - 5º Prêmio Amadeo Souza-Cardoso, Museu Amadeo Souza-Cardoso, Amarante, Portugal
          - Fragmentos contemporâneos, Museu de Arte Moderna da Bahia, BA
          - Fragmentos contemporâneos, Galeria 57, Leiria, Portugal
          - Afuera, Galeria Tierra fertil, Buenos Aires, Argentina, 2005
2004  - Rita Câmara Galeria de Arte, Salvador, BA
          - 1 de Abril(performance: saindo de casa), Galpão Santa Luzia, Salvador, BA 
2003  - Projeto inclassificados, Espaço Bananeiras, Rio de Janeiro, RJ, SESC Niteroi, RJ 
          - Varal, Casa de Angola, Salvador, BA
2002  - I Bienal Ceará América,Centro de Cultura Dragão do Mar Fortaleza, CE, 
          - IX Salão da Bahia, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, BA, 
          - Pintura Bahia 2000, Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, BA, 
          - IV Mercado Cultural, ICBA, Salvador, BA, 

2001  - III Bienal de Artes Visuais do Mercosul, Porto Alegre, RS, 
          - Arte no peito, Galeria mundo arte, Salvador, Ba
          - Gestos, Conjunto Cultural da Caixa, Salvador, Ba
          +100 artistas plásticos, Museu de Arte Sacra, Salvador,Ba
2000  -Terrenos, ICBA, Salvador, BA
          - Galeria Zula, Iaparica, BA
          - V Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Danneman, São Félix, BA
          - XXVIII Salão regional de artes plásticas da Bahia, Centro de Feira de Santana, BA
          - Cinco universos em papel, Galeria Moacir Moreno, Salvador, BA
          - Galeria solar do Ferrão, Salvador, Ba 
1990  - XXVII Salão regional de artes plásticas da Bahia, Centro de Cultura de Valença, BA 
          - V Bienal do Recôncavo, Centro Cultural Danneman, São Félix, BA
          - XXVII Salão regional de artes plásticas da Bahia, Centro de Cultura Juazeiro, BA
          - Bahia 2000, Espaço Davi Bastos, Salvador, BA
          - Projeto Pinte Salvador, Salvador, BA
          - Centro de Cultura de Mar Grande, Itaparica, BA, Brasil 

Residências no Exterior
2007 Harmony Art Foundation, Mumbay, India(60 dias)
2008 Cité des Arts, Paris, França (60 dias)
 
Prêmios
2007, Premio Aquisição Residencia no exterior, 14º Salão do Mam, Salvador BA
2007, Premio Aquisição Temporada de Projetos 2007, Centro Cultural São Paulo, SP
2007, Prêmio Projéteis de Artes Visuais, Funarte, Rio de Janeiro, RJ
2006, Prêmio Rumos Itaú Cultural São Paulo, SP
2007, Prêmio Manuel Quirino,Salvador, BA
2004, Prêmio Braskem de Cultura e Arte, Salvador, BA
2002, Prêmio Braskem de Cultura e Arte, Salvador , BA
2001, Prêmio Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia, Valença, BA
1999, XXVII Salão Regional de Artes Plásticas da Bahia, Centro de Cultura Juazeiro, BA

Obras em acervo
Pinacoteca Municipal de São Paulo, SP
Banco do Nordeste S/A, João Pessoa, PR
Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador, BAl
Centro de Cultura Dragão do Mar, Fortaleza ,CE
Harmony Art Foundation, Mombay, India
Phillips do Brasil S/A, Brasil, São Paulo, SP
Universidade das Artes, Caxias do Sul, RS, Brasil
Fundação Joaquim Nabuco, Recife, PE
Fundação Cultural do estado da Bahia, Salvador, BA

email: gaiomatos@gmail.com

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